Como a Disciplina Fiscal Sustenta um Desenvolvimentismo que Já Deveria Ter Acabado
Desde o Plano Real, estabilidade virou condição de sobrevivência política. Nenhum governo — de esquerda ou de direita — pode brincar com inflação. Isso cria uma trava: o Estado precisa gastar menos do que promete, mas a sociedade exige mais do que o orçamento comporta. O resultado é uma engenhoca institucional baseada em atalhos, subsídios invisíveis, crédito direcionado, protecionismo silencioso e políticas industriais que não aparecem como gasto. A lógica é simples e brutal. O fiscal impede aventura, mas o velho desenvolvimentismo impede reforma. O investimento público derrete, os juros ficam altos para segurar expectativas, o BNDES distorce a política monetária com crédito barato e o mercado trabalha com preços inflados, produtividade baixa e competição fraca. Os setores que têm acesso ao Estado prosperam; o resto paga a conta com crédito caro, impostos regressivos e pouca chance de inovação. O país entra num ciclo vicioso: estabilidade exige truques; os truques encarecem o capital; capital caro derruba investimento; investimento baixo exige mais intervenção; intervenção pressiona o fiscal. E tudo recomeça. Sem desmontar esse arranjo opaco, não há futuro que avance.


