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O mito de que o Brasil deixou o desenvolvimentismo

O mito de que o Brasil deixou o desenvolvimentismo

O desenvolvimentismo nunca saiu de cena. Ele se infiltrou tão fundo na cultura política, econômica e intelectual do Brasil que sobreviveu às reformas, às crises e até aos discursos pró-mercado. O país fez aberturas parciais, privatizou alguns setores e modernizou pedaços da economia, mas sempre preservando o núcleo duro do modelo estatal. Isso não foi acidente: as crenças que sustentam o desenvolvimentismo continuaram guiando decisões, alinhando expectativas e moldando instituições, mesmo quando governos falavam como liberais. A história reflete esse padrão. Desde a redemocratização, presidentes oscilaram entre pragmatismo fiscal e impulsos intervencionistas. O Plano Real trouxe estabilidade, mas não uma virada ideológica. As reformas dos anos 90 foram tímidas e calculadas. O Estado seguiu financiando campeões nacionais, protegendo setores e interferindo na estrutura produtiva. Esse comportamento tinha lastro. O pensamento estruturalista e keynesiano moldou gerações de formuladores de políticas, ao mesmo tempo em que o liberalismo era associado a desigualdade e vulnerabilidade. As vitórias econômicas do passado, ocorridas em momentos de forte ativismo estatal, reforçaram ainda mais essa convicção coletiva. O resultado é uma economia que muda sem jamais romper. O Estado continua no centro, coordenando investimentos e distribuindo incentivos, enquanto o mercado opera num espaço estreito. O país convive com travas fiscais rígidas, resistências políticas profundas e uma cultura econômica que prefere ajustes graduais a reformas estruturais. O desenvolvimentismo virou lastro. Mantém o navio estável, mas também impede qualquer mudança real de rumo.

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