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Mises: Filosofia Kantiana ou Realismo Aristotélico?

A interpretação de Ludwig von Mises como um kantiano ortodoxo tornou-se comum entre leitores iniciantes da Escola Austríaca. Muitos, ao depararem-se com a estrutura lógica e dedutiva da praxeologia, concluem apressadamente que ela seria uma aplicação direta da filosofia crítica de Kant à economia. Essa leitura, embora compreensível à primeira vista, é profundamente equivocada.


É evidente que há pontos de contato entre as categorias da praxeologia e a noção kantiana de juízos sintéticos a priori. O próprio Mises reconhece que as proposições da ciência econômica são a priori e independem da experiência empírica. Contudo, interpretar isso como uma “pretensão epistemológica de fundamentar a praxeologia na filosofia de Kant” é ignorar o horizonte intelectual no qual Mises foi formado - e, sobretudo, o objetivo real de sua investigação epistemológica.


Hans-Hermann Hoppe já observou que as ideias praxeológicas foram “claramente influenciadas por Kant”, mas alertou que isso não torna Mises “pura e simplesmente kantiano”. De fato, como demonstra Jörg Guido Hülsmann na introdução à terceira edição de Problemas Epistemológicos da Economia, o pensamento austríaco nasceu em um ambiente educacional impregnado pelo realismo aristotélico, sustentado por uma tradição filosófica que buscava compreender a natureza das coisas em si, e não apenas as condições de possibilidade do conhecimento.

É exatamente esse realismo que transparece na obra de Mises. Sua preocupação não era construir um sistema epistemológico abstrato, mas esclarecer a natureza do conhecimento econômico e da ação humana. A praxeologia, para ele, é uma ciência que investiga as leis invariáveis da ação - aquelas que permanecem válidas independentemente do tempo, lugar, raça ou condição social. Essa busca por constâncias universais é um traço típico do realismo clássico.


O modo de validação praxeológica também revela essa herança: as leis econômicas não são inferidas da observação sensorial, mas apreendidas intelectualmente a partir da compreensão da essência da ação. Trata-se de uma “apreensão intelectual da natureza das coisas”, uma forma de conhecimento que parte da razão, mas não se separa da realidade.


Quando Mises fala da praxeologia como ciência a priori, ele não está fazendo um gesto kantiano de isolar o pensamento do mundo empírico. Ele está, antes, afirmando que existem certas verdades sobre a ação humana que são logicamente necessárias para que a própria experiência seja possível. A categoria de ação - agir propositalmente em busca de fins - não é uma hipótese empírica, mas uma condição de inteligibilidade da realidade social.


É por isso que Mises rejeita a discussão sobre se os juízos da praxeologia são “analíticos” ou “sintéticos”:

“As questões de saber se os julgamentos da praxeologia devem ser chamados analíticos ou sintéticos e se seu procedimento deve ou não ser qualificado como ‘meramente’ tautológico são de interesse apenas verbal.” (Ação Humana, p. 73)

Ou seja, a insistência em classificar os teoremas da praxeologia como juízos sintéticos a priori — algo que muitos fazem para reforçar a leitura kantiana - é uma distorção. Mises simplesmente não estava preocupado com essa taxonomia. Seu objetivo era demonstrar que a estrutura da ação humana é uma realidade objetiva, que pode ser conhecida racionalmente e de modo necessário.


Além disso, Mises jamais afirmou que o conhecimento sobre o mundo concreto pode ser deduzido apenas do raciocínio. Ele mesmo distingue claramente entre o conhecimento praxeológico, que trata das categorias universais da ação, e o conhecimento histórico, que depende das condições empíricas específicas. A praxeologia fornece a estrutura lógica; a experiência, os conteúdos particulares.


Quando se entende isso, fica claro o equívoco das leituras que tentam reduzir Mises a um kantiano. Ele foi, sim, influenciado por Kant, mas permaneceu enraizado em uma tradição filosófica que reconhecia o realismo como fundamento da racionalidade humana. Suas categorias não são construções mentais arbitrárias, mas reflexos das próprias condições de existência do homem em um mundo de escassez e finalidade.


Em última instância, a epistemologia misesiana busca reconciliar razão e realidade: a mente humana conhece a estrutura da ação não porque a inventa, mas porque vive nela. A praxeologia é a ciência dessa estrutura - um esforço para compreender, com precisão e rigor, aquilo que é universal na experiência humana de agir.


Essa é a verdadeira base epistemológica de Mises: uma soma de diversas contribuições que não se limita a filosofia kantiana.

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